Há 10 anos, foi lançado o filme “Pelé: O Nascimento de uma Lenda”, que trata da história dos momentos iniciais da trajetória do Rei do futebol, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé — o maior ídolo esportivo da história do Brasil. O que é intrigante no filme são as referências que ele faz à nossa doença cultural da síndrome de vira-lata; o longa traz também a herança do povo preto com a capoeira, o jeito gingado de jogar futebol e o sentimento patriótico real que representou a Copa de 1958 e a nossa seleção brasileira. Um filme que pode ter passado despercebido por ter sido lançado no caldeirão de polarização política do impeachment de Dilma, num tempo em que usar a camisa amarelinha foi confundido com um movimento político.

Estamos em 2026, no clima gostoso de Copa do Mundo: famílias reunidas, torcida conjunta por nossa seleção e todo mundo unido pela paixão nacional, o futebol. Mas há algo ainda estranho no ar para parte da população. Usar a amarelinha ainda causa uma certa estranheza. Nos últimos 10 anos, passamos por uma agitação política de ruptura institucional com a queda de Dilma, os arroubos autoritários de Bolsonaro dia sim, dia não, a tentativa de golpe em 8 de janeiro e a associação dos símbolos nacionais e do sentimento patriótico capturados por agrupamentos políticos de extrema direita.

Este trauma coletivo que o extremismo causou, esta ruptura social, aos poucos está se esvaziando. Mas não há como negar: a polarização radical separou o país e ainda encontrou ensaios de renovação na força das redes sociais, em novas lideranças da chamada “nova direita” e no forte rescaldo do discurso que marcou a última década.

A contradição deste falso patriotismo da extrema direita é evidente. Ao mesmo tempo que usam os símbolos nacionais, batem continência para a bandeira dos Estados Unidos da América. Falam de um Brasil sudestino, sulista, branco e de classe média. Darcy Ribeiro, no livro O Povo Brasileiro define esta parte do Brasil como Paulistânia — este local que engloba o norte de Santa Catarina, Paraná, São Paulo até Goiás. São territórios que receberam imigrantes europeus (alemães, italianos, entre outros) e que, apesar de também carregarem a herança étnica e cultural do povo preto e indígena, recusam esta identidade brasileira miscigenada. Não é à toa que o extremismo ainda encontra eco nesta visão paulistocêntrica de Brasil.
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É daí que a extrema direita se banha e carrega este sentimento de humilhação frente ao Norte Global e de ódio ao povo nordestino e ao povo preto, tão presente na fala de Jair Bolsonaro quando disse que “quilombolas são medidos em arrobas”.
Essa nova roupagem do extremismo se manifesta de forma cruel, inclusive no esporte. Recentemente, vimos influenciadores e militantes desses movimentos reproduzirem discursos racistas grotescos contra o nosso craque Vini Jr., validando os ataques que ele sofre no exterior ou questionando sua capacidade intelectual. É uma violência verbal que choca o mundo, mas que ainda é relativizada por esses nichos radicais. A pergunta que fica é: a amarelinha continuará sendo capturada por este esgoto preconceituoso?
O filme de Pelé mostra o exato oposto do extremismo. Fala que a grande sacada do Rei, na Copa de 1958, foi afirmar nossa identidade mestiça, reforçando o que o longa repetiu seguidas vezes como “gingado”. Um trecho do filme, muito poético, faz uma reverência linda à nossa capoeira, arte marcial que o povo preto encontrou para resistir à escravidão e que mais tarde levou o povo a praticar futebol com este jeito gingado.

O Brasil sediou a Copa de 1950 e foi derrotado. A mídia da época atacou justamente esse jeito gingado, essa recusa da tática engessada dos europeus de jogar futebol. Os críticos replicavam este sentimento de inferioridade do brasileiro frente aos europeus. Pelé mostrou ao mundo não só o nosso jeito de jogar futebol, mas o nosso jeito de ser; por isso é um herói, por isso é uma lenda. Nós gingamos no trabalho, no nosso jeito de fazer negócios, nas relações com outras nações, na cultura popular, em nossas belezas naturais, mas em especial no gingado de nosso povo miscigenado, que tem o privilégio de carregar a herança africana da resistência contra a escravidão, da beleza do povo indígena, da coragem do povo branco e da sapiência do povo amarelo.
A amarelinha carrega este sentimento de afirmação da identidade nacional, do nosso jeito gingado, humilde, sagaz, heróico, da ancestralidade preta, popular e periférica. Daquele menino preto e periférico da cidade de Bauru que dominou o mundo e ainda é o eterno Rei do futebol. Este sentimento de esperança, esta garra de “não desistir nunca”, de se impor e mostrar que nosso jeito é diferente, é bonito, é gingado, é o nosso jeito de se afirmar enquanto povo. A sensação é que isso está voltando a aflorar na dancinha do Paquetá, no gingado de Vini, Raphinha e Matheus Cunha. Mas isso não para no futebol: está nos negócios, está na política, está nas relações internacionais. A amarelinha está voltando a ser de todos; finalmente estamos nos libertando do extremismo.

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